IA, torradas e misto quente

Um simples lanche numa padaria pode demonstrar como a insuficiência de conhecimento e de critérios técnicos reduz a capacidade de avaliação crítica do conteúdo gerado por inteligência artificial.

LINGUAGEM AUDIOVISUALTECNOLOGIA E INOVAÇÃOINTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Jotass

8/20/20263 min ler

Sanduíche quente com queijo e presunto, câmera fotográfica e xícara ao fundo.
Sanduíche quente com queijo e presunto, câmera fotográfica e xícara ao fundo.

O gaúcho chega apressado numa padaria em São Paulo e pede:

— Por favor, uma torrada?

O atendente responde:

— Sim.

Logo após, entrega uma fatia de pão tostado, simples. Sem recheio.

O gaúcho na hora pergunta:

— Creio que falta algo... o senhor não esqueceu o recheio?

O atendente prontamente responde:

— Não, senhor, torrada é assim: uma fatia de pão aquecido.

O gaúcho não se conforma:

— Não, é um pão (de forma ou cacetinho – também desconhecido para o atendente) recheado de presunto e queijo, com manteiga dos dois lados do pão. E sim, aquecido.

O atendente retruca:

— Ah, o senhor está falando de misto quente! Não de torrada.

O cliente gaúcho:

— Aqui se chama torrada de misto quente? Sério? Qual a lógica?

— Senhor, me perdoe, mas qual a lógica de um sanduíche tão recheado ser chamado de torrada? Retornou, com clara expressão de dúvida, o nervoso atendente.

Ficaram os dois em busca da razão (que ambos tinham); afinal, em cada código próprio estavam amparados. E a torrada ali esfriando, o cliente com fome e o atendente inerte. O gaúcho diz:

— Tá bom. Vou comendo o pão torrado e me vê esse tal de misto quente.

Enfim, a torrada e o misto quente só servem de exemplo do que seria a falta do prompt correto. Claro que há o cardápio. Mas quantos de nós, na pressa diária, olhamos na padaria? É assim na vida. Quantos de nós lemos manuais, códigos, termos de uso? No corre diário isso é “perda de tempo” ... para as máquinas, não. Para elas códigos são sagrados. São alimentadas por eles. Suas programações são feitas para mixá-los e devolver imagens (no caso das IAs generativas) e elas o fazem! Sempre! Podem ter certeza: uma inteligência artificial dificilmente tem a "humildade" de dizer: não sei ou não entendi. Ela vai lá e “cria”: seja lá o que for. E é assim que as coisas muitas vezes saem do trilho.

Como resolver? No caso da padaria com uma leitura prévia do cardápio, ou uma pergunta complementar do atendente. Na geração de imagens, com o letramento no universo da produção audiovisual. Faz toda a diferença (como no lanche) pedir o que você quer: tipo de pão, recheio, manteiga ou maionese? No audiovisual é assim: qual plano (no audiovisual, ‘plano’ também tem um significado técnico além de planejamento)? Enquadramento? Luz? Estética? Cenário? Quantas cenas? Sequências? Qual o tom narrativo?

Imagem criada pela IA Adobe Firefly com prompt da CQV

Se quem pede o vídeo (seja para uma IA ou para a produtora audiovisual contratada) não sabe dizer o que quer, dificilmente vai receber o que espera.

Aí que entra o letramento no universo da produção audiovisual: com ele, você consegue entender os códigos da produção em áudio e vídeo. Ele ajuda a traduzir termos, elementos e mecanismos da indústria audiovisual e a compreender as formas de empregar os conteúdos em cada produto/atividade cultural selecionada. Ou seja, como usar todo esse conhecimento para produzir vídeos e áudios que tracionem negócios, projetos e iniciativas.

Não é só perguntar para o atendente. Às vezes, o cardápio dele está lá, mas, se você não consegue entender o que significa, vai ficar decepcionado. Saber o que escolher para não sair com fome da padaria, com um pão torrado quando queria um bem recheado ou entender o que pedir, como criar ou qual prompt usar pode ser a diferença entre sucesso e fracasso.

Bom apetite!

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